Wednesday, July 19, 2006

"Senhorita Júlia" inspira novo filme de Sérgio Silva

Diretor de Anahy de las Missiones transpõe para a paisagem gaúcha o clássico de August Strindberg, com Fernanda Rodrigues, Marcelo Serrado e Dira Paes no elenco
Porto Alegre - Professor do Departamento de Arte Dramática, o DAD, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o diretor Sérgio Silva traz para o cinema a sua sólida formação teatral. Em Anahy de las Missiones, ele transportou a trama de Mãe Coragem, de Bertolt Brecht, para a Revolução Farroupilha, ocorrida no Rio Grande, no século 19. No seu novo filme, que está sendo rodado em Viamão, a 20 km de Porto Alegre, Silva recorre a outro autor importante (e a outro texto que venera). Noite de São João baseia-se em Senhorita Júlia, de August Strindberg, que teve uma versão recente, inédita no Brasil, dirigida por Mike Figgis e, nos anos 50, virou um clássico de Alf Sjoberg.
"É um filme noturno", diz o diretor, que faz associações e cria metáforas misturando sexo e lua. A lua é crescente no céu de Viamão, mas uma imensa bola suspensa sobre o set projeta uma luz que simula lua cheia. O set está armado na Estância Gaúcha de Águas Belas, pertencente ao Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore. Foi aí que Silva fez a festa de lançamento de Anahy, quando a velha fazenda tombada foi entregue ao público, completamente restaurada. É um típico galpão gaúcho, todo decorado com bandeirolas mais coloridas do que as de Alfredo Volpi. Em frente, uma imensa fogueira projeta uma chama que invade a noite e pode ser vista a distância.
Uma unidade de bombeiros permanece alerta no set. Uma ambulância, também. "Com fogo não se brinca", diz a produtora Gisele Hailitl, que todos chamam de Giza, desta maneira explicando a precaução. É uma produção de R$ 3,2 milhões. Os investidores são: Banrisul, Ipiranga, Tintas Killing e Brasília Guaíba Obras Públicas. Entre os apoiadores estão o Banco do Brasil, o BNDS, a Quanta e o Labocine. Giza explica: "Um milhão para a rodagem, um para a pós-produção e um para o lançamento." Quando terminaram o lançamento de Anahy, ela encomendou a Sérgio Silva, de quem é parceira fiel, dois projetos, um caro e outro mais barato. O caro é uma adaptação da tragédia grega Hipólito, transposta para a era atual. O barato, que não é tão barato assim, é a Senhorita Júlia de Silva. Outro filme de época do diretor, que transpõe a ação da peça de Strindberg para o início do século 19.
Fernanda Rodrigues faz Joana, Marcelo Serrado é João e o terceiro papel é de Dira Paes, que já trabalhou com o diretor em Anahy e interpreta Joana (Cristina na peça). Um triângulo que Silva, fiel ao autor, trata de forma não convencional. Júlia é a mimada filha do dono da fazenda. Ela oprime as pessoas ao seu redor, mas não o faz por maldade. "Foi criada assim e exerce de forma natural essa maneira de oprimir as pessoas", define Fernanda. Numa noite de São João, Júlia se envolve com João, capataz da fazenda. A peça de Strindberg também se passa numa noite de São João, mas lá a aurora é boreal, representa o auge do curto verão sueco. A noite de Silva é meio irreal. Ele trabalha de forma a não dar ao espectador a sensação da passagem de tempo. É uma longa noite que termina de chofre, com a chegada da aurora. E há uma cena prévia, também diurna. Tudo isso lembra A Noite, de Michelangelo Antonioni, mas Silva nega qualquer aproximação, até porque os elementos dramáticos de seu filme e o do diretor italiano são diversos.
Fernanda e Marcelo Serrado não foram as primeiras escolhas de Silva para os papéis. Ele queria fazer Noite de São João com Marcos Palmeira, um dos atores de Anahy, e Letícia Sabatella. Chegou a retardar a produção por quase um ano para ter Palmeira no elenco, mas o ator terminou a novela Porto dos Milagres estressado e pediu a Silva, em nome da amizade, que o liberasse. Outra novela - O Clone - também impediu a participação de Letícia, cuja personagem, cresceu na trama de Glória Peres. Foi a chance de Fernanda e Serrado, ambos globais. Ela já fez um filme dos Trapalhões (Simão). Acaba de fazer Nelson Rodrigues no teatro: O Beijo no Asfalto. Acha que a experiência com a personagem rodriguiana lhe deu bagagem para assumir a complexidade da Senhorita Júlia. Mesmo assim, é um desafio e tanto para uma atriz vista com freqüência nos papéis (rasos) de heroína jovem na Globo.
Essência preservada - Serrado fez O Beijo com Fernanda. Foram dirigidos por Marcos Alvisi. Ele também acha que Nelson Rodrigues lhe deu estofo para encarar o personagem strindberguiano. Não poupa elogios ao diretor: "Sérgio é maravilhoso no trato com os atores. E, até por ser professor de teatro, ele possui uma visão profunda da peça, que sabe passar para a gente." Só não é a estréia de Serrado no longa, após alguns curtas, porque ele concluiu, pouco antes de viajar para o Sul, sua participação no novo filme ("Baratinho, mas muito interessante") de Murilo Salles, o diretor de Assim Nascem os Anjos. Silva realmente tem um jeito especial de trabalhar com os atores. Reconhece que houve uma mudança considerável no perfil dos personagens, com os atores de que dispõe. "Júlia e João ficaram mais jovens, impetuosos e imaturos, mas acredito que a essência de Strindberg está sendo preservada."
Os conflitos sociais e sexuais da peça são agudizados pelo diretor, que situa Noite de São João no quadro da agitação que os anarquistas promoveram no Rio Grande, no século passado. Há personagens secundários que representam a consciência da classe trabalhadora. João não possui essa consciência. Sonha com os frutos de ouro no alto da cristaleira da casa de Júlia, mas é oprimido pelas botas do pai dela, o coronel que nunca chega a aparecer. Araci Esteves, a admirável Anahy de Silva, interpreta Joaquina, a matriarca da casa, confinada em seu quarto, entre os objetos que lhe são caros (e que ela manda comprar em Montevidéu). Joana, a personagem de Dira Paes - todos os nomes começam com J, um capricho do diretor -, vai um passo adiante de João.
Agregada na casa, não é servil como o namorado. "É uma personagem boa de fazer", diz a talentosa Dira. A rodagem vai até dia 20, sem folga durante o carnaval. Houve problemas. Silva queria fazer o filme com Pedro Farkas, mas o fotógrafo declinou, dizendo que gosta de trabalhar com luz natural e esse não é o caso de um filme que se passa à noite, com luz artificial para simular o luar. O fotógrafo escolhido foi Rodolfo Sanchez, que rodou durante uma semana e ficou doente, desligando-se por um tempo da produção. Quem assumiu a fotografia foi Paulo Teles, cameraman de Sanchez. Não é fácil trabalhar com luz artificial, mas ele está se saindo bem, diz o diretor (e mantendo o conceito de Sanchez, acrescenta Giza). Do set de Noite de São João, a produtora informa, pelo telefone, que Sanchez está recuperado, já deixou o hospital em São Paulo e viaja sábado para Porto Alegre, para retomar a função.

Luiz Carlos Merten

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